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O blog do Jojó
Um espaço para compartilhar com amigos, alunos e curiosos sobre filosofia, vida, trabalho, amor, esporte e Yôga.
 

Arquivo do mês de Fevereiro, 2009

Uma experiência energética – histórias de vivências do Jojó com o Yôga

Sexta-feira, 20 de Fevereiro, 2009

jojo-na-praia-3Havia iniciado minha prática pelo menos há uns seis meses. A identificação com a técnica e o método ocorrera imediatamente e estava imerso em treinar diariamente.

Como ainda era funcionário público, trabalhando oito horas por dia, só possuía disponibilidade de praticar pela manhã, bem cedo e depois do horário do expediente. Minha iniciadora, a Profa. Dalva Arruda, identificando minha paixão pela filosofia, tinha me ofertado uma cópia da chave da porta de entrada do então Instituto de Yôga de Florianópolis. Assim, acordava todos os dias às cinco horas da manhã e me deslocava até a nossa escola de Yôga, praticando apenas de sunga azul turquesa (na época tínhamos uma graduação por cor de uniforme: azul turquesa para os alunos, lilás para instrutores e graduados e branco para os Diretores).

Executava um ady ashtánga sádhana de duas horas e fechando o instituto, me dirigia para o trabalho. Quando saía, às 18 horas, novamente caminhava para o instituto, e realizava mais uma aula com a minha preceptora.

Aos sábados e domingos, religiosamente, repetia todo o ritual pela manhã e a noite. Era um ótimo volume de técnicas concentradas e os resultados logo se fariam notar.

Com uma leve influência estóica na época, havia assumido dois compromissos que cumpria sem desleixo: era dormir nu, independentemente da temperatura (e Floripa faz frio no inverno) e não virar de barriga para baixo durante o sono.

Além disso, a minha dieta era muito restrita. Todas estas atitudes iriam resultar em uma experiência muito interessante algum tempo depois.

Um dia, era verão, e o relógio marcava por volta das quatro e meia da manhã. Preparava-me para levantar e espreguicei. Ao realizar este movimento, uma onda de energia física muito, muito prazerosa, percorreu todos os músculos que haviam participado do deslocamento corporal. Sem abrir os olhos, e profundamente surpreso, espreguicei-me para o outro lado e uma nova vaga de expansão energética cursou outros músculos. Continuando sem abrir os olhos, como um felino, iniciei um simulacro de coreografia ainda deitado e submergi em um verdadeiro oceano de ênstase físico e nervoso, acompanhado por uma percepção de luminescência azul claro muito vívida que banhava o corpo por dentro.

Dali, sentei e iniciei uma das práticas mais lindas, profundas e reveladoras que já fiz em toda a minha vida. Depois levantei, e fui trabalhar, porém as sensações, embora em grau mais atenuado, permaneceram comigo durante várias horas, até o dia seguinte ainda.

Um encontro com Shiva – histórias da Índia.

Quinta-feira, 12 de Fevereiro, 2009

eloraEstávamos em 1980. Era minha primeira viajem a Índia. Sob a orientação do educador DeRose, estávamos em 30 instrutores de Yôga, percorrendo há duas semanas o subcontinente indiano, visitando templos, escolas de Yôga e ruínas históricas. O ambiente entre nós era o melhor possível, com todos tirando muitas fotos, dando muita risada, e entre um compromisso e outro da nossa agenda turística, nos deliciando com a maravilhosa e inigualável culinária indiana.

Quase no final da viajem, aportamos em Aurangabad, uma cidade fundada em 1610 pertencente ao Estado d e Maharastra, localizada no oeste do país, com cerca de 945 mil habitantes.

Seu principal atrativo turístico são as cavernas de Ajanta e Elôra. Elas foram construídas entre 600 e 1000 d.C., e talhadas na encosta de um monte. As trinta e quatro cavernas de Ellora estendem-se por quilômetros e incluem templos budistas, hinduístas, e janaístas.

Mas o templo mais impressionante e famoso de Ellora é o Kailasanatha. Este é dedicado a Shiva, sendo escavado de cima para baixo e retirados mais ou menos 85 mil metros cúbicos de rocha para a sua construção.

Ao entrar no arcaico complexo de edificações, eu havia recolhido um pequeno ramalhete de flores vermelhas e levava comigo enquanto acompanhava nosso grupo percorrendo as escuras galerias, seguindo a apresentação do guia turístico. Nossos olhos extasiavam-se diante dos corredores extensos, passagens estreitas, pátios interiores; escorregadiças escadas, poços escuros, repentinas varandas e galerias, de onde podia-se contemplar as planícies abaixo.

Passado algum tempo, afastei-me do grupo e iniciei uma escalada para os andares mais altos das cavernas, através das estreitas e desgastadas escadas. À medida que avançava andares de grutas acima, escasseavam os grupos de turistas, até que atingi um nível das cavernas onde presenciei um silêncio imperturbável. Sob os meus pés, o chão de pedra polida assinalava os milhares de pés nus que haviam estado ali. A minha direita e esquerda, mais de uma centena de metros de um grande salão vazio, cujo teto de rocha maciça era sustentado por dezenas de largas colunas. E a minha frente, para dentro da pedra, uma escuridão sem fim.

Senti-me impulsionado para avançar na direção aquela obscuridade granítica. Algo me chamava para a parte escura do imenso salão. Um tanto inseguro, encetei a caminhada ao encontro da espessa negritude. Curiosamente, à cada passo que me fazia penetrar mais e mais na escuridão, meu coração ficava mais tranqüilo, como se meu corpo soubesse estar em um local seguro.

Imerso em um ambiente sem luz, ouvi o movimento de asas de alguns morcegos passando por cima de minha cabeça, provavelmente assustado por uma presença inesperada. E continuei caminhando até que meus pés encontraram o que parecia ser um degrau. Tateei com as mãos a minha direita e esquerda e descobri que ali terminava o salão e que estava diante de uma porta.

Ainda com a flor na mão, sobrepus-me ao degrau e adentrei ao que parecia um outro salão. Sem enxergar coisa alguma, na posse de uma coragem surpreendente diante do desconhecido e impelido por uma força incompreensível, caminhei mais alguns passos para dentro do salão e toquei no que me pareceu outro degrau, porém maior. Arrisquei transpor, mas a estrutura rochosa continuava a erguer-se. Posei então minhas mãos para tentar identificar e me arrepiei: estava diante de um imenso lingam de pedra, símbolo de fertilidade e poder, e alusivo a Shiva. Abri meus braços para tentar contorná-lo, mas ele crescia ainda mais para os lados e para muito além de minha altura.

Centenas de anos antes, aquele salão havia sido um local de culto a Shiva, o criador mitológico do Yôga. Impactado, depositei as flores que trazia comigo, como um pújá, aos pés do lingam e envolvido por aquela atmosfera de antiguidade e poder, sentei-me para meditar.

Com a mente silenciosa, minha consciência deixou-se impregnar da tônica vibratória do local. Senti-me transportar para um tempo e espaço em que aquele salão ficava lotado de devotos de Shiva. Podia captar os cheiros, os mantras, as roupas e os rostos. Fiquei imerso muito tempo, desfrutando daquelas prazerosas percepções.

Finalmente abri os olhos e considerei que era hora de voltar ao convício do grupo. Levantei-me, e ainda sob o impacto das impressões deixadas pela meditação, caminhei na direção das escadas que me levaram aos andares mais baixos de cavernas.

Quando cheguei ao local onde ficara o nosso ônibus, ele já lá não estava. Em verdade, o local estava deserto e me descobri sozinho. Fiquei parado algum tempo tentando absorver o que estava acontecendo, quando ouvi alguém falando em híndi atrás de mim. Virei-me e defrontei um pequeno indiano, com trajes que indicavam ser o vigia do local.

Sentamo-nos sobre algumas pedras maiores que haviam se deslocado das edificações e iniciamos o diálogo mais inusitado: eu a usar o meu parco inglês e ele utilizando uma mistura da língua bretã com seu próprio idioma.

O sol começava a se por. O céu desdobrava-se do anil até o vermelho e já mal conseguíamos divisar detalhes dos nossos rostos. Pássaros cortavam o céu e um silêncio permeava a cena, apenas quebrado pelas nossas vozes que eram quase um sussurro, com se não quisessem quebrar a paz daquele momento. Com uma mescla de temor e excitação, vislumbrava a possibilidade de ter de ficar na Índia. O pequeno indiano convidou-me a pernoitar em casa de sua família e eu já aceitara.

Quando nos preparávamos para partir, meus olhos vislumbraram uma nuvem de poeira vinda em nossa direção. Era o ônibus de turismo do nosso grupo que voltava para me pegar. Ficamos em pé aguardando a sua aproximação. Despedi-me do amigo indiano e voltei todos ao hotel. Não era desta vez que viraria um saddhu na Índia.

Dica de filme & livro: Apocalypse Now & Coração das Trevas.

Quarta-feira, 4 de Fevereiro, 2009

apocalypseMuito cedo, meu pai, Telmo Marengo, me incitou ao hábito da leitura. Com 12 anos fui apresentado Lord Jim, obra ficcional de Joseph Conrad, um escritor britânico de origem polonesa.

Alguns anos depois, tive o prazer de ler outro livro de Conrad e aquele que se tornou uma leitura recorrente nestes 50 anos de vida: Coração das Trevas (Heart of Darkness – 1902).

Em 1979, entra em cartaz nos cinemas o filme Apocalypse Now, realizado pelo diretor Francis Ford Coppola e ambientado na guerra do Vietnã, contando a história de Willard (Martin Sheen), capitão do exercito estadunidense, com a missão de matar o coronel Kurtz (Marlon Brando) no interior da selva do Camboja.

Pois, o filme é nada mais, nada menos do que uma adaptação de Copolla ao livro de Joseph Conrad, Coração das Trevas.

O filme me encantou imediatamente, e desde então, já o assisti pelo menos umas 20 vezes, assim como o livro pertinente.

Adoro a densidade, a atmosfera assustadora, sufocante e ao mesmo tempo instigante e desafiadora do livro e do filme.

Se desejar conhecê-los, sugiro ler primeiro o livro e depois assistir a segunda versão da película, Apocalypse Now Redux, reeditada pelo próprio Coppola.

Uma reflexão sobre os problemas

Segunda-feira, 2 de Fevereiro, 2009

E fomos felizes para sempre…

É o que todos esperamos da vida, como premio por tanto sacrifício, decepções, perdas, dor e solidão.

Estou com 53 anos e, sinceramente, prefiro ver o cotidiano como uma mescla de tudo isso combinado com momentos de boas surpresas, risos, prazeres, conquistas e cumplicidade.

Ou como dizia Millôr Fernandes, o guru do caos, “toda alegria vem embrulhada num papel fininho de tristeza”.

Assim sendo, não me parece a escolha mais inteligente, interpretar os inevitáveis problemas diários como uma praga divina, mas como parte inerente do existir.

No fantástico filme, Pulp Fiction – Tempo de violência – dirigido e escrito por Quentin Tarantino, um das personagens mais instigantes era Winston Wolf, magistralmente interpretado por Harvey Keitel, e que se especializou em resolver problemas. Ou seja, aonde os outros viam dificuldades, Woff encontrava saídas.

Concluindo, podemos escolher divisar os inexoráveis desafios habituais como parte inerente da nossa vida e a maneira como vamos solucioná-los, um treinamento para a criatividade e a construção de novas habilidades.

 
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