A palavra hierarquia comumente está equivocadamente associada à coerção, e por isso, comumente gera uma reação refratária.
Precisamos mesmo de hierarquia? Concordo que temos dificuldade de ajustar-nos a ela. Entre tantos motivos, elencamos a dificuldade de equacionar o conceito de liberdade individual com a regra, a norma.
Toda a regra tem como funções a redução de conflitos, a busca da harmonia nas relações. Seja de um grupo de homo sapiens, chimpanzés ou panthera leo.
Esta também é um dos objetivos da hierarquia. Se não, vejamos o que diz o Educador DeRose, muito apropriadamente, sobre o assunto: o que mais prezamos é a arte de relacionar-nos bem com todo o mundo: nossos pares, nossos subordinados e nossos superiores. Uma excelente ferramenta para facilitar um bom relacionamento, baseado no respeito mútuo, é a observância da hierarquia.
Ela contribui para evitar confrontos desnecessários e anti-éticos. E auxilia a etiqueta, poupando-nos de gafes, eliminando dúvidas quanto à posição a ser ocupada em qualquer circunstância por todos os membros da nossa comunidade, desde a localização dos alunos numa sala de práticas, à distribuição dos participantes numa cerimônia, ou até numa fotografia de grupo; enfim, orienta-nos sobre a maneira de comportar-nos em qualquer situação.
A palavra hierarquia vem do grego hieros (sagrado) + arché (poder, comando) podendo ser definida como organização social em que se estabelecem relações de subordinação e graus sucessivos de poderes, de situação e de responsabilidades; ou ainda como classificação, de graduação crescente ou decrescente, segundo uma escala de valor, de grandeza ou de importância (Dicionário Houaiss).
No seu livro, Eu, primata, o autor, Frans de Wall, observa que não apenas somos sensíveis às hierarquias e à linguagem corporal a elas associadas, mas simplesmente não podemos viver sem elas. Mesmo que alguns preferissem vê-las desaparecer, a harmonia requer estabilidade, e esta depende, em última análise, de uma ordem estabelecida. Podemos ver facilmente o que acontece na aus6encia de estabilidade em uma colônia de chimpanzés. Os problemas começam quando um macho que costumava sair do caminho e fazer reverencia para o chefe, transforma-se em desafiante, causando barulho e confusão (…). O momento crítico não é a primeira vitória do desafiante, mas a primeira vez em que ele obtiver a submissão (…). Enquanto não se estabelecer a ordem vigente outra vez, o ambiente do clã refletirá a divisão de poder, sinalizando medo e desconforto. Para os chimpanzés, a hierarquia clara e estável elimina tensões, e com isso os confrontos tornam-se raros: os subordinados evitam conflitos, e os superiores não tem motivos para buscá-los.
Sinais por favor!
Na natureza, os chimpanzés, as hienas, as abelhas e formigas são exemplos de organizações sociais fortemente hierarquizadas, como vantagem evolutiva que garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação do gene.
Na sociedade humana, vamos encontrar na igreja, exército, artes marciais e na família, modelos de corporações hierarquizadas. Em todas elas, quanto mais visíveis os sinais de quem é quem, mais confortáveis todos se sentem. Todos nós ambicionamos por transparência hierárquica. Sentimo-nos muito confusos sem sinais externos da posição das outras pessoas em relação a nós. Seja pela aparência, atitude ou objetos que porta, estamos permanentemente procurando indícios hierárquicos para sabermos como comportarmo-nos.
Imagine um dojô, local onde se treinam as artes marciais, em que todos trajassem quimonos com faixas da mesma cor. Como cada um saberia distinguir quem é um Mestre ou um iniciante? Buscariam ansiosos e inseguros, no olhar, postura etc, sinais hierárquicos com resultados constrangedores, provavelmente, e que seriam facilmente contornado por uma codificação de cores nas faixas.
Vantagens e desvantagens da hierarquia
As vantagens da ordem hierárquica esta na divisão de responsabilidades, que gera, para qualquer organização, resultados coletivos mais eficientes, além de facilitar o aprendizado, e segurança decorrente da estabilidade pela redução os conflitos.
O desafio está no caráter daqueles que representam os graus mais altos de importância em qualquer sistema hierárquico. Vemos diariamente, em todos os lugares maus exemplos de conservadorismo e corporativismo, além de corrupção, abusam de poder e preconceito.
E a liberdade?
A liberdade é o nosso bem mais precioso. No caso de ter que confrontá-la com a disciplina, se esta violentar aquela, opte pela liberdade (Mestre DeRose)
Nossa observação do ser humano constata que nem todos nasceram para viver sob hierarquia, pois ela sempre releva os interesses individuais em prol do que é melhor para a maioria.
O que devemos procurar é de que forma podemos ser úteis em um sistema hierárquico e de como nossos talentos possam construir uma mútua e vantajosa relação de trocas, aonde as habilidades individuais reforçam e aprimoram o modelo hierárquico e este nos ofereça estabilidade, amigos confiáveis, segurança e reconhecimento.





