
O maior de todos os sádhanas
é a convivência gregária.
Arquivo da Categoria ‘Yôga’Frases do JojóSegunda-feira, 10 de Agosto, 2009
O maior de todos os sádhanas é a convivência gregária. Frases do JojóTerça-feira, 4 de Agosto, 2009
Enquanto a Humanidade espera que a sorte a agarre para mudar a sua vida, o SwáStha agarra a vida e muda a sua sorte. O saddhu de Machu Picchu (parte 1)Segunda-feira, 3 de Agosto, 2009Em maio de 1976 conheci o SwáSthya e me encantei imediatamente. Lembro-me que a imersão foi total e em poucos meses já sentia os resultados. De segunda a domingo, acordava às cinco da madrugada para realizar meu sádhana matinal que durava até as sete. De segunda a sexta, depois de praticar na Unidade, me dirigia ao trabalho, pois era servidor público federal e aproveitava para estudar os livros indicados na bibliografia da época. Quando saía do emprego, me deslocava até a Unidade para praticar ainda mais com a Profa. Dalva Arruda, minha iniciadora. Naquele período, todos fazíamos uma grande mistureba de egrégoras, além de ler de tudo, fosse sério ou pura alucinação. Estávamos nos anos setentas, que eram fortemente influenciados pela contracultura, o movimento hippie etc. Lembro-me de ter morado em duas comunidades hipongas, onde plantávamos, tomávamos banhos gelados todos os dias, todos praticavam Yôga, o amor era livre e, infelizmente, as drogas também. Ingenuamente, acreditava-se que drogas como o LSD poderiam conduzir o indivíduo à iluminação. Muitos amigos meus experimentaram estas substâncias e jamais voltaram, tornando-se pessoas isoladas, algumas suicidaram-se e outras ficaram esquizofrênicas. As imagens dos yogis ascetas, com sua proposta de desprendimento do corpo e dos bens materiais, vivendo em total foco na iluminação, serviam, equivocadamente, de arquétipo para milhares de Instrutores e praticantes de todas as modalidades, em todo o mundo, naquela década. Entre esses, estava eu. (continua amanhã) Mudanças de atitude em Portugal: um exemplo para todos.Segunda-feira, 22 de Junho, 2009
Neste período, o Nosso Método em terras de Portugal, passou por muitas mudanças, assim como toda a Rede. Nesta última passagem ressalto para dois aspectos importantes e que servem de exemplo para as demais representações espalhadas pelo mundo: 1. Uma atitude de receptividade às sugestões de melhorias indicadas em auditorias ou mesmo em conversas informais. Esta atitude demonstra desejos de aperfeiçoamento e evolução. Ao invés de retrucar e posicionar-se defensivamente, retrucando e justificando as dicas de melhorias, anotam e iniciam as mudanças. 2. Por isso, as Unidades estão a melhorar muito suas instalações, que é o segundo aspecto a ressaltar. Notadamente as Unidades Chiado, dirigida pelo Inst. Ricardo Seriz, a Unidade Amadora, do Inst. Carlos Leocádio, da Unidade Foz, sob a coordenação da Profa. Letícia Ziebell e Unidade Antas, do Instr. Edu Cirilo Pressinto melhores mudanças para as paisagens lusitanas e é muito bem estar aqui para testemunhar algumas delas. Um grande festival de YôgaSegunda-feira, 22 de Junho, 2009
Estamos no Porto, Portugal, depois de três dias maravilhosos em Viseu, cidade próxima, onde aconteceu o XV Fest-Yôga do Porto, organizado pelo meu querido amigo, o Prof, Luis Lopes, o famoso Fininho. Ficamos instalados em um hotel simplesmente colossal, com apartamentos muito confortáveis e amplos. e paredes de um metro de espessura, já que a edificação era um mosteiro que foi recuperado. Com duas salas grandes para vivências, havia 25 particpantes de França, mais uns tantos de Itália e Espanha. além de Portugal, Argentina e Brasil. Um verdadeiro festival internacional que inclui tradução simultânea. O evento foi uma grande festa, com uma super produção do nosso querido Fininho, incluindo ótima comida, ótima acomodação, pessoas interessantes, vivências intensas, lindas coreografias e um clima festivo com muito compartilhamento. Parabéns a Portugal, a Federação de Yôga do Norte de Portugal e ao nosso querido prof. Luis Lopes. Tantra & Condicionamentos – uma reflexãoSexta-feira, 24 de Abril, 2009
O assunto condicionamentos é recorrente em nossas palestras e cursos, já que o tema parece fundamental para entendermos o Yôga como uma ferramenta de libertação. - Mas que libertação é essa? – Exatamente deles, dos condicionamentos. Pondero que a compreensão da: 1. Importância e função dos condicionamentos na evolução das espécies, e 2. Como eles modelam nossa visão da realidade, influenciando nossas escolhas que constroem o nosso karma, são essenciais para elaborarmos a maneira como lidaremos com o Yôga, tanto como prática e enquanto filosofia. O samadhi, hiperconsciência ou iluminação é o fenômeno neurológico que possibilita contemplarmos a realidade sem o uso distorcido de lentes interpretativas, tais como as emoções, mente e intuição, mas como ela efetivamente se apresenta. Todos os outros veículos acima são uma mera interpretação dos eventos e das formas animadas ou inanimadas a nossa volta, porque estão sob o domínio, a influência dos condicionamentos (vásanás), que manipulam nossos sentidos, criando, literalmente, uma visão pessoal, irreal do mundo. Esta é, na nossa humilde opinião, uma forma de aprisionamento e o Yôga visa exatamente nos ajudar a deslocar-nos do condicionado para o incondicionado, a libertação final (môksha). Acredito que para a maioria dos estudiosos e praticantes desta filosofia fóssil, este assunto é bastante familiar e não pretendemos aprofundá-lo. Em realidade, queremos nos deter é no como executar, realizar este procedimento de libertação, e aí as modalidades de Yôga não são unânimes. A maioria delas, por sofrer forte influência Vêdánta-Brahmáchárya, opta como método, pelo aniquilamento do ego através de técnicas ascéticas, restritivas dos sentidos, caracterizada pela negação do corpo e das sensações, consideradas como irreais, descartáveis, na busca da realidade última, denominada Átman. Por ser repressivo, e, portanto, contrapondo-se a natureza das coisas, o sistema Vêdánta-Brahmáchárya coloca em risco com muita freqüência a sanidade dos praticantes, incorrendo em muitíssimos casos de suicídios e esquizofrenias, por exemplo, alem de deformações anatômicas permanentes. Já a proposta Sámkhya-Tantra tem outra abordagem que pode ser muito bem exemplificada por um ditado tântrico que diz: “Se ao chão cais (numa alusão a vida material, física, execrada pelos praticantes de Yôga brahmácháryas, por considerarem-na uma fonte de dispersão ou vrittis), é com o auxílio do chão que levantarás”. Ou seja, propõem uma práxis que não nega, entre tantas coisas, os condicionamentos, mas propõem substituí-los por outros, mais inteligentes, em uma espiral ascendente, que conduz o yôgin a incorporar escolhas mais sábias. Ocorre então, uma profunda, positiva, contínua e irreversível transformação karmica, até que os condicionamentos substituídos sejam tão sutis, refinados e transcendentes que produzem um espelhamento com o incondicionado (Púrusha) e o sádhaka alcança a libertação. Esta proposta de substituição dos condicionamentos, em verdade, ouvi do Mestre DeRose há um par de anos, em um dos seus tantos cursos e registrei por considerá-la muito inteligente sobre vários aspectos, mas aquele que mais me atraiu foi o fato de levar em conta a condição humana, sem negá-la ou reprimi-la, mas exaltar as oportunidades de aprimoramento e evolução nela embutidas. O Ego e o SwáSthya YôgaSexta-feira, 24 de Abril, 2009
Existe um texto muito esclarecedor escrito pelo Mestre sobre isso e repasso para que leia com atenção. As modalidades de Yôga que se tornaram mais conhecidas nos últimos séculos eram do tronco medieval (Vêdánta-Brahmáchárya). Uma característica dessa linhagem é o esforço para aniquilar o ego. Isso confunde muito os praticantes (e até instrutores) do tronco Pré-Clássico (Sámkhya-Tantra), pois esse conceito está bastante difundido na Índia de hoje e na literatura que proveio de lá. Como estudiosos que são, nossos adeptos travam contato, de alguma maneira, com a bibliografia que prega a aniquilação do ego e mesclam-na inadvertidamente com a proposta do SwáSthya Yôga. Então, vamos esclarecer o estudante sobre como a nossa linhagem interpreta isso. Quando alguém nos desagrada, a atitude mais primária é querer livrar-nos da pessoa, ao invés de administrar o relacionamento e torná-lo produtivo. Quando um animal é indomável, a solução primitiva é castrá-lo. Assim fazem os Vêdánta-Brahmácháryas com o ego. Nossa estirpe, 4.000 anos mais antiga, tem outra opinião. Nós entendemos que o ego é uma ferramenta importante do ente humano. Não queremos acabar com o ego, ao contrário, nosso método de trabalho atua no sentido de reforçar o ego para poder utilizar sua colossal força de realização. Sem ego não há criatividade, combatividade, arte ou beleza. E mais: a maioria dos que declaram que o ego é isto, que o ego é aquilo, são hipócritas porque manifestam muito mais ego que os outros; frustrados por não conseguir eliminá-lo; ou mal intencionados por utilizar esse argumento para manipular seus seguidores. Anular o ego seria como castrar um animal de montaria e depois utilizá-lo, caminhando cabisbaixo, sem libido. Trabalhar o ego equivale a domar e montar um cavalo andaluz inteiro, fogoso, orgulhoso, com sua cabeça erguida e suas passadas viris. Você é o Púrusha, sua montaria é o ego. Você prefere montar um pangaré derrotado ou um elegante garanhão? Castrar o ego seria fácil demais. Domá-lo, isso sim é uma empreitada que requer coragem e muita disciplina. Eliminar o ego corresponde à covardia e fuga perante o perigo. Adestrá-lo denota coragem e disposição para a luta. O SwáSthya Yôga, nome moderno do Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga, quer que você não seja castrado. O SwáSthya reforça sua libido e o seu ego. Em seguida, canaliza essa força resultante para fins construtivos. Ter ego não é o problema. Tê-lo deseducado, selvagem, incivilizado, criador de casos e de conflitos com as outras pessoas, esse é o grande inconveniente. Basta não nos esquecermos de que devemos mandar nele e não o contrário. Portanto, no lugar de envidar esforços para destruir, vamos investir em algo construtivo. Nada de destruir o ego. Vamos cultivá-lo, com disciplina e a noção realista de que precisamos dele para a nossa realização pessoal, profissional e evolutiva. Já está na hora de sabermos converter energias negativas em positivas, como no quadro abaixo:
Sim, a coluna da esquerda apresenta alguns sentimentos que nossa cultura judaico-cristã considera depreciativamente. Contudo, a raiva constrói. A agressividade educada conduz à vitória. Dessa forma, eliminando o ego, o erotismo, a raiva, o orgulho, a ambição, a agressividade, todos os tratores do sucesso são igualmente eliminados.
Uma lição de MestreSegunda-feira, 23 de Março, 2009
Nesta época, éramos todos hippies, mas o Jojó era o mais hippie de todos, comendo muito arroz integral com gersal, cabeludo (acreditem, eu já tive cabelo!), e muito barbudo. E como todo hippie da época, era muito radical, descriminando todos que adotassem hábitos comportamentais diferentes dos meus, principalmente os alimentares. Cheguei ao cúmulo de interceptar um desconhecido na rua, chamando-lhe a atenção sobre os malefícios da coca-cola que ele levava em uma das mãos. Pois, em um determinado fim-de-semana, em São Paulo, estávamos na Unidade do Mestre, todos reunidos em um grande grupo, entre alunos e instrutores, acompanhando cursos e o Jojó fazia patrulhamento comportamental quanto às escolhas alimentares dos participantes. O Mestre tudo assistia, sem nada comentar. Passamos o sábado entre estudos e práticas e no fim do dia, depois de todos tomarem banho e jantar, nos reunimos na sala de aula para jogar conversa fora. Além de muitos instrutores e alunos, estavam também presentes, o nosso querido Sistematizador e Betinha, a sua esposa na época. Em algum momento do bate-papo, a conversa derivou para o soma, beberagem ritualista da tradição védica e cuja composição perdeu-se, utilizada há milênios, com o intuito de reproduzir artificialmente um estado semelhante ao samádhi. Ficamos algum tempo trocando idéias sobre o assunto, quando o nosso amigo, com aquele timbre de voz tão característico, alardeou: - Eu descobri a fórmula do soma. Todos os olhos dos presentes arregalaram-se, voltando-se fixamente na direção do Mestre. - O soma, Mestre? Mesmo? – ouviu-se uma indagação entre os membros do grupo. - Sim e pegarei um pouco para que provem – disse ele, levantando-se e dirigiu-se até o seu quarto. Um silêncio absoluto tomou conta da sala. Todos estavam com a respiração em suspensão, imóveis e incrédulos. Afinal o procedimento de elaboração do soma estava perdido havia milênios. Será que estávamos diante de uma revelação? Passados alguns minutos, nosso Mestre adentra a sala com um pequeno objeto, seguro solenemente entre os dedos das duas mãos. Todos os olhos estavam cravados no diminuto artifício que, logo identificamos como uma ânfora de ferro, envelhecida, como as encontradas em descobertas arqueológicas. O momento era mágico. Afinal iríamos desfrutar de algo que centenas de gerações de buscadores em vão conseguiram encontrar. Sentíamo-nos privilegiadas. Realmente especiais. E mais distinguido me senti, ao perceber que havia sido eleito para ser o primeiro a sorver do líquido sacralizado. O Mestre estendeu seus braços em minha direção e, respeitosamente, projetando os meus, acolhi entre meus dedos a pequenina ânfora ancestral. Todos me olhavam enquanto trazia o recipiente aos lábios. Quando as primeiras gotas invadiram minha boca, espalhando-se, fechei os olhos para melhor desfrutar. Era muito, muito bom, pois o soma alem de adocicado, estava gelado e produzia uma percepção palatável semelhante a presenças de gotas de ar minúsculas, que misturadas a beberagem, proporcionavam um efeito muito refrescante. - Que delícia, Mestre. Nunca tomei nada igual – exclamei, entusiasmado. Ele me olhou profundamente nos olhos e disse: - É coca-cola, Joris – e deu uma enorme gargalhada, seguido por todos os presentes. Fiquei em estado de choque por alguns instantes e então entendi. E me juntei aos demais na risada coletiva. Morria ali um natureba chato. Uma experiência energética – histórias de vivências do Jojó com o YôgaSexta-feira, 20 de Fevereiro, 2009
Como ainda era funcionário público, trabalhando oito horas por dia, só possuía disponibilidade de praticar pela manhã, bem cedo e depois do horário do expediente. Minha iniciadora, a Profa. Dalva Arruda, identificando minha paixão pela filosofia, tinha me ofertado uma cópia da chave da porta de entrada do então Instituto de Yôga de Florianópolis. Assim, acordava todos os dias às cinco horas da manhã e me deslocava até a nossa escola de Yôga, praticando apenas de sunga azul turquesa (na época tínhamos uma graduação por cor de uniforme: azul turquesa para os alunos, lilás para instrutores e graduados e branco para os Diretores). Executava um ady ashtánga sádhana de duas horas e fechando o instituto, me dirigia para o trabalho. Quando saía, às 18 horas, novamente caminhava para o instituto, e realizava mais uma aula com a minha preceptora. Aos sábados e domingos, religiosamente, repetia todo o ritual pela manhã e a noite. Era um ótimo volume de técnicas concentradas e os resultados logo se fariam notar. Com uma leve influência estóica na época, havia assumido dois compromissos que cumpria sem desleixo: era dormir nu, independentemente da temperatura (e Floripa faz frio no inverno) e não virar de barriga para baixo durante o sono. Além disso, a minha dieta era muito restrita. Todas estas atitudes iriam resultar em uma experiência muito interessante algum tempo depois. Um dia, era verão, e o relógio marcava por volta das quatro e meia da manhã. Preparava-me para levantar e espreguicei. Ao realizar este movimento, uma onda de energia física muito, muito prazerosa, percorreu todos os músculos que haviam participado do deslocamento corporal. Sem abrir os olhos, e profundamente surpreso, espreguicei-me para o outro lado e uma nova vaga de expansão energética cursou outros músculos. Continuando sem abrir os olhos, como um felino, iniciei um simulacro de coreografia ainda deitado e submergi em um verdadeiro oceano de ênstase físico e nervoso, acompanhado por uma percepção de luminescência azul claro muito vívida que banhava o corpo por dentro. Dali, sentei e iniciei uma das práticas mais lindas, profundas e reveladoras que já fiz em toda a minha vida. Depois levantei, e fui trabalhar, porém as sensações, embora em grau mais atenuado, permaneceram comigo durante várias horas, até o dia seguinte ainda. Um encontro com Shiva – histórias da Índia.Quinta-feira, 12 de Fevereiro, 2009
Quase no final da viajem, aportamos em Aurangabad, uma cidade fundada em 1610 pertencente ao Estado d e Maharastra, localizada no oeste do país, com cerca de 945 mil habitantes. Seu principal atrativo turístico são as cavernas de Ajanta e Elôra. Elas foram construídas entre 600 e 1000 d.C., e talhadas na encosta de um monte. As trinta e quatro cavernas de Ellora estendem-se por quilômetros e incluem templos budistas, hinduístas, e janaístas. Mas o templo mais impressionante e famoso de Ellora é o Kailasanatha. Este é dedicado a Shiva, sendo escavado de cima para baixo e retirados mais ou menos 85 mil metros cúbicos de rocha para a sua construção. Ao entrar no arcaico complexo de edificações, eu havia recolhido um pequeno ramalhete de flores vermelhas e levava comigo enquanto acompanhava nosso grupo percorrendo as escuras galerias, seguindo a apresentação do guia turístico. Nossos olhos extasiavam-se diante dos corredores extensos, passagens estreitas, pátios interiores; escorregadiças escadas, poços escuros, repentinas varandas e galerias, de onde podia-se contemplar as planícies abaixo. Passado algum tempo, afastei-me do grupo e iniciei uma escalada para os andares mais altos das cavernas, através das estreitas e desgastadas escadas. À medida que avançava andares de grutas acima, escasseavam os grupos de turistas, até que atingi um nível das cavernas onde presenciei um silêncio imperturbável. Sob os meus pés, o chão de pedra polida assinalava os milhares de pés nus que haviam estado ali. A minha direita e esquerda, mais de uma centena de metros de um grande salão vazio, cujo teto de rocha maciça era sustentado por dezenas de largas colunas. E a minha frente, para dentro da pedra, uma escuridão sem fim. Senti-me impulsionado para avançar na direção aquela obscuridade granítica. Algo me chamava para a parte escura do imenso salão. Um tanto inseguro, encetei a caminhada ao encontro da espessa negritude. Curiosamente, à cada passo que me fazia penetrar mais e mais na escuridão, meu coração ficava mais tranqüilo, como se meu corpo soubesse estar em um local seguro. Imerso em um ambiente sem luz, ouvi o movimento de asas de alguns morcegos passando por cima de minha cabeça, provavelmente assustado por uma presença inesperada. E continuei caminhando até que meus pés encontraram o que parecia ser um degrau. Tateei com as mãos a minha direita e esquerda e descobri que ali terminava o salão e que estava diante de uma porta. Ainda com a flor na mão, sobrepus-me ao degrau e adentrei ao que parecia um outro salão. Sem enxergar coisa alguma, na posse de uma coragem surpreendente diante do desconhecido e impelido por uma força incompreensível, caminhei mais alguns passos para dentro do salão e toquei no que me pareceu outro degrau, porém maior. Arrisquei transpor, mas a estrutura rochosa continuava a erguer-se. Posei então minhas mãos para tentar identificar e me arrepiei: estava diante de um imenso lingam de pedra, símbolo de fertilidade e poder, e alusivo a Shiva. Abri meus braços para tentar contorná-lo, mas ele crescia ainda mais para os lados e para muito além de minha altura. Centenas de anos antes, aquele salão havia sido um local de culto a Shiva, o criador mitológico do Yôga. Impactado, depositei as flores que trazia comigo, como um pújá, aos pés do lingam e envolvido por aquela atmosfera de antiguidade e poder, sentei-me para meditar. Com a mente silenciosa, minha consciência deixou-se impregnar da tônica vibratória do local. Senti-me transportar para um tempo e espaço em que aquele salão ficava lotado de devotos de Shiva. Podia captar os cheiros, os mantras, as roupas e os rostos. Fiquei imerso muito tempo, desfrutando daquelas prazerosas percepções. Finalmente abri os olhos e considerei que era hora de voltar ao convício do grupo. Levantei-me, e ainda sob o impacto das impressões deixadas pela meditação, caminhei na direção das escadas que me levaram aos andares mais baixos de cavernas. Quando cheguei ao local onde ficara o nosso ônibus, ele já lá não estava. Em verdade, o local estava deserto e me descobri sozinho. Fiquei parado algum tempo tentando absorver o que estava acontecendo, quando ouvi alguém falando em híndi atrás de mim. Virei-me e defrontei um pequeno indiano, com trajes que indicavam ser o vigia do local. Sentamo-nos sobre algumas pedras maiores que haviam se deslocado das edificações e iniciamos o diálogo mais inusitado: eu a usar o meu parco inglês e ele utilizando uma mistura da língua bretã com seu próprio idioma. O sol começava a se por. O céu desdobrava-se do anil até o vermelho e já mal conseguíamos divisar detalhes dos nossos rostos. Pássaros cortavam o céu e um silêncio permeava a cena, apenas quebrado pelas nossas vozes que eram quase um sussurro, com se não quisessem quebrar a paz daquele momento. Com uma mescla de temor e excitação, vislumbrava a possibilidade de ter de ficar na Índia. O pequeno indiano convidou-me a pernoitar em casa de sua família e eu já aceitara. Quando nos preparávamos para partir, meus olhos vislumbraram uma nuvem de poeira vinda em nossa direção. Era o ônibus de turismo do nosso grupo que voltava para me pegar. Ficamos em pé aguardando a sua aproximação. Despedi-me do amigo indiano e voltei todos ao hotel. Não era desta vez que viraria um saddhu na Índia. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||
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