Genialidade e frustração
Compulsiva, a mente, por seu tráfego incessante e ruidoso, não nos permite ver além dela, da mesma forma que não podemos ver a areia do mar sob nossos pés quando as águas estão muito mexidas.
A terra existe há 4 bilhões e 500 milhões de anos, dos quais os nossos ancestrais mais remotos começaram a povoar há “apenas” 4 milhões de anos. É muito pouco tempo se mensurarmos o tempo total da vida do planeta. O Homo sapiens habita o mundo há menos de duzentos mil anos. Neste curto espaço temporal, saltamos de apenas mais uma espécie, nem tão bem equipada fisicamente para a competitiva luta pela sobrevivência na natureza, para o topo da cadeia alimentar, devido aos nossos extraordinários atributos intelectuais. Somos temidos por todas as outras espécies e não tememos ninguém, apenas a nós mesmos.
O nosso impressionante poder adaptativo, adicionado a uma inventividade sem limites, não só geraram um mundo sofisticado, de confortos e comodidades, como a capacidade em viver em lugares inóspitos, de 50º negativos como a Antártica, 50º positivos no Sahara e realizar “pequeno salto para o homem e grande salto para a Humanidade” como ir a lua.
Estamos tão acostumados com a tecnologia que não percebemos os verdadeiros milagres gerados diariamente. Só para exemplificar, imagine um grupo de macacos reunidos para montar um simples rádio de pilhas. Lendo e relacionando as peças e depois o fazendo funcionar. Não conseguimos conceber que aqueles bichinhos peludos, de testa achatada e mãos parecendo pés e vice-versa, seriam capazes. E não são mesmo. E notem que a diferença entre nós e um chimpanzé é de apenas um cromossoma!
Mas deixando o plano do concreto, vamos desfrutar por um momento da genialidade da criação de uma 9ª sinfonia. E mais extraordinária porque quem a bolou era surdo. Ou do refinamento estético da teoria da relatividade hoje nem tão teórica assim. É um luxo! Ou seriamos capazes de imaginar que uma vaca pudesse sentar com as pernas cruzadas e experimentar uma meditação.
Nossa genialidade quase nos suplanta. Às vezes, podemos imaginar seres extraterrestres observando os frutos da nossa criatividade, com uma expressão (seja qual cara eles tenham) de espanto. Teriam de aceitar que pequenos mamíferos, impregnados ainda de tanta instintividade (embora tentemos mantê-la guardada numa caixa, isto é, numa cueca), pelados, com apenas alguns tufos de cabelos no alto da cabeça, embaixo dos braços e no púbis, foram capazes de criar algo tão refinado como o cinema, a poesia, a música, o existencialismo e a espiritualidade.
Somos uma espécie impressionante. Quase podemos prescindir dos deuses, tal a nossa capacidade criadora. Mas alguma coisa deu errado. Criamos material e idealmente uma civilização sofisticadíssima, fruto da nossa incrível capacidade inventiva, capaz de reproduzir o paraíso e daqui há uns poucos pares de anos a imortalidade biológica, mas toda esta sofisticação não produz paz, compaixão, tolerância, amor ou felicidade.
Numa residência qualquer do sul do mundo, temos uma sofisticada televisão digital, o DVD, confortável mobiliário confeccionado numa textura e densidade para nos dar a sensação de estarmos sentados ao lado direito do Criador, aromas refinados extraídos da comidinha saindo do microondas, e nossos filhos saudáveis, nutridos e educados comunicam-se com o mundo pela internet num computador. Enquanto isso o dono da casa lê no jornal do dia, as fotos premiadas do ano: a primeira é de um pai africano segurando um filho nos braços, morrendo de AIDS e a outra foto ganhadora é de uma mulher iraniana consolando uma outra, que chora desesperada diante da morte dos seus entes amados. Não acham que há algo de doente nesta premiação? Ou não?
Num shopping qualquer, uma mulher apressada, depois de almoçar, ao invés de distribuir os restos do seu banquete no lixo seletivo, rapidamente despeja os resíduos no lixo único, pois tem pressa, muita pressa. Não tinha tempo para fazer seu pequeno gesto diário de amor e apreço pela sua grande mãe: a Terra.
Nunca se morreu tanto do coração, nunca se matou tanto gratuitamente, nunca tivemos tanta abundância alimentar e, no entanto, nunca tantos morreram de fome. Nunca tantas espécies desapareceram como nestes nossos tempos, de centenas de religiões e nunca tantos se sentiram tão sem fé.
Aquele senhor, que lê o jornal que partilha a sua existência há tantos anos com sua parceira, já não tira mais os olhos do jornal para ouvir sua companheira, e nem ela acha que merece atenção.
São dois estranhos, partilhando uma vida sem muitos sonhos comuns, pouco tesão e muita conta para pagar.
Nunca tantos estiveram tão sós. Esta solidão é facilmente identificável aos domingos, ao crepúsculo, quando uma estranha melancolia se apossa de nós. A cidade guarda seus milhares de isolados habitantes em pequenos apartamentos e silenciosa, faz ressoar o programa do Faustão ou Sílvio Santos. Nada mais deprimente, solitário e vazio.
Sacralizada insatisfação
Contraditórios, criativos, apaixonados, desesperados, egoístas, poéticos, arrogantes, impiedosos, delirantes, amorosos e principalmente confusos, assim somos nós, a espécie humana.
Transformamo-nos quase deuses, mas alguma coisa não funciona. Não conseguimos desfrutar da felicidade. Buscamos incessantemente por esta: na promoção e reconhecimento profissional, no status social, no paixão, na fé, nos músculos bem delineados da nossa juventude, numa mesa farta, num conhaque envelhecido, nos paraísos artificiais, no futuro assegurado para os nossos filhos, no bilhete da loteria.
Mas mesmo que conquistemos todas estas coisas, ainda não estaremos felizes. Pois agora sofreremos para manter todas estas conquistas. E mesmo que consigamos assegurá-las, ainda não estaremos felizes, pois vamos morrer um dia e perderemos tudo isso que conquistamos.
Estes questionamentos não são novos. Caminham com a humanidade desde que a espécie humana se diferenciou das outras por adquirir consciência (segundo o Dicionário Aurélio: atributo altamente desenvolvido no ser humano e que consiste na faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, conhecimento imediato de sua própria atividade psíquica).
Pois é esta consciência de si, toda a nossa glória e o nosso jugo. Nenhum cachorro ou gato, ou macaco sofre por antecedência, como nós o fazemos diante da morte. Ou ainda tem consciência que um dia morrerá. Nenhuma outra espécie sofre por remorso ao matar. Ou diante da fêmea no cio, escolherá não copular. Os outros seres não têm poder de escolha, de julgamento, de certo ou errado. Nenhum júri de hienas irá condenar um leão à prisão perpétua pela morte de um gnú.
Sofremos porque, num acidente biológico, nossa espécie adquiriu consciência. Podemos mesmo dizer que somos uma aberração da natureza. Padecemos porque já não podemos manifestar toda a nossa instintividade animal sem culpa, e embora vislumbremos todo o potencial de uma consciência plenamente clarificada e desenvolvida, esta mesma instintividade não nos permite atingir os níveis mais sutis e refinados desta mesma consciência.
Através do tempo, alguns entre os milhares da nossa espécie, determinaram-se a tentar descobrir um mapa que os levasse desta condição conflitiva original para uma outra de compreensão e liberdade.
O inimigo: a mente
Neste processo, perceberam a existência de um instrumento largamente utilizado por nós, que mais nos diferencia das outras espécies, e que é o principal responsável pela condição humana: a mente. Apesar de deificada por muitos, que visam desenvolvê-la, na verdade a mente é apenas um dos atributos da consciência, e utilizada por nós principalmente para nos comunicarmos verbalmente, além de adicionar dados, já que a memória é um dos subprodutos da mente, assim como o raciocínio.
Compulsiva, a mente por seu tráfego incessante e ruidoso não nos permite ver além dela da mesma forma que não podemos ver a areia do mar sob nossos pés quando as águas estão muito mexidas devido aos ventos.
Este fluxo aparentemente incontrolável de desejos, pensamentos, lembranças, ambições está sempre aí, dia após dia, mês após mês, ano após ano.
Neste processo de mapeamento, os antigos, além de encontrar na mente ruidosa um obstáculo e um véu para o acesso às manifestações mais sutis da consciência, descobriram um outro fato interessante: a mente só trafega em dois tempos, o passado e o futuro, não estando de nenhuma forma vinculadas a único tempo real: o presente. Daí começaram a procurar técnicas que possibilitasse a parada dos pensamentos e encontraram a meditação.