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ÔM
O blog do Jojó
Um espaço para compartilhar com amigos, alunos e curiosos sobre filosofia, vida, trabalho, amor, esporte e Yôga.
 

Entradas com Etiqueta ‘escolhas’

As escolhas e o canteiro budista

Sábado, 17 de Julho, 2010

pegadas Conta a lenda, que em um mosteiro budista existia um canteiro de areia. Localizado no átrio  central, a superfície do canteiro era mantida impecavelmente lisa por um grupo de acólitos.  Portando rastilhos de bambu, com cerdas finas como fios de cabelo, estes se sentavam em torno  do grande tanque de pedra, atentos a qualquer alteração no nivelamento arenoso.

Seu trabalho era constante, pois além das alterações climáticas, o canteiro sofria diariamente  mudanças com um dos exercícios de meditação característico daquele mosteiro e diariamente exercitado pelos discípulos: cruzar lenta e concentradamente, descalços, o quadrado de areia.

Pelo menos uma vez por dia, cada monge fazia este trajeto. Caminhava contrito até a entrada do  canteiro com os olhos focados neste, respirava profundamente e depois pé ante pé, com o maior  cuidado, realizava a travessia. Chegando ao término de sua jornada, invariavelmente olhava  para trás, para as pegadas que marcavam a sua trajetória e com um suspiro de leve  desapontamento, voltava as costas para o grande tabuleiro e afastava-se para o interior do  mosteiro.

Todos repetiam a prática, ano após ano e década após década.

O objetivo da meditação era avaliar o quanto de poder detinha cada praticante sobre seus atos, palavras e pensamentos, de maneira a que não produzissem um único desdobramento kármico sequer. Este domínio sobre o karma era naturalmente transferido para o caminhar do acólito, permitindo-lhe atravessar o canteiro de areia sem deixar pegadas.

Assim são as nossas escolhas. Cada palavra proferida, pensamento emitido ou ação executada tem um poder imenso na construção do nosso futuro. Podemos mesmo dizer que nosso destino é construído e modificado diariamente, influenciado pela qualidade das nossas escolhas.

A necessidade de se criar divindades.

Quando comparamos a evolução do macaco humano com as de outros mamíferos, ficamos boquiabertos com a sua capacidade adaptativa, seja nas mudanças anatômicas quanto comportamentais que fez para atingir o topo da cadeia alimentar.

O homem-macaco desceu da segurança das árvores para a vida ameaçadora das planícies, estendeu a coluna, ampliou o cérebro, desenvolveu ferramentas, tornou-se caçador e construiu a cultura.

Segundo os zoólogos, para conseguir uma vantagem evolutiva, o Homo sapiens retardou a maturação cerebral, obrigando-se a permanecer para sempre com algumas características juvenis e mesmo infantis. Algumas delas foram a procura pelo risco, necessidades de explorar, criar e inventar coisas novas, aspectos bem pronunciados nas crianças quando brincam. Ao crescer, o mamífero humano, para alimentar sua sede de explorar e experimentar, criou aquilo que conhecemos como civilização.

Entre as suas invenções mais curiosas estão as divindades. Qual o motivo que o levou a construir uma realidade sobrenatural? E porque esta visão mítica se mantém, ainda nos dias de hoje, permeando a tecnologia, os negócios, as regras e leis, os valores morais, mesmo com o advindo da ciência? Poderemos um dia transcender esta visão, para uma realidade sem crenças?

Uma observação importante é conhecer a definição do verbete crer no dicionário: tomar por verdadeiro, ter por certo, ter confiança em (alguém ou algo); acreditar; formar idéia sem base real; imaginar, pensar, presumir. A palavra quase se antagoniza com outro verbo que é o saber, indicando que aquele que crê, em verdade não conhece, mas gostaria que o objeto de sua crença se transformasse em realidade.

O surgimento das crenças nos deuses surgiu, provavelmente, da necessidade que nossa espécie sentiu, desde sempre, de tentar entender o mundo fenomenal que o rodeava. No início, a tudo que nos cercava, que não compreendíamos, atribuíamos uma conotação mágica, fruto de uma imaginação sem limites, produto de nossa evolução cerebral, pois a ciência só surgiria milhares de anos depois para explicar os fenômenos naturais. A gestação, a morte, o nascimento, as mudanças climáticas, os acontecimentos cotidianos foram agregando um valor mítico, que comandava a vida dos antigos.

Porém, a continuidade das crenças em divindades, através de milhares de anos de história civilizatória, teria uma explicação mais utilitária: a garantia da estabilidade dos grupos sociais. A concepção de entidades imortais, atreladas à atributos de potência inimaginável, e que, portanto, com poderes sobre a vida de simples mortais, levaria o ser humano a uma única condição possível: a de resignar-se com o seu destino, sem questionar, aceitando aquilo que estas divindades escolhessem, e com isso diminuindo os riscos de revolta social.

Este sentimento de pequenez diante de forças invisíveis e indestrutíveis, gerou no homem um fatalismo, um determinismo existencial, um sentimento de destino inevitável, que perdura, inconscientemente até hoje, moldando magicamente, decisões diárias tomadas por bilhões de pessoas.

- O que está por trás desta visão distorcida do destino, que nos leva a entregramos nossas vidas nas mãos de potencias invisíveis, intangíveis e incertas?

Medo da responsabilidade.

A desconforto da responsabilidade de ter de escolher. Gostamos de culpar Deus, o diabo e a sorte, mas somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos.
Por isso, tanta gente, prefere ser liderado a liderar. Todos os líderes, desde a pré-história, sempre tiveram que conviver com o ônus de ser responsáveis pelas conseqüências das decisões que tomaram. Mas, no âmbito do indivíduo, cada um é líder de si mesmo.

Deste modo, precisa tomar resoluções cruciais diárias, que envolvem o seu futuro. O medo da responsabilidade está diretamente atrelado aos baixos patamares de consciência que se possui, da dificuldade de associar as centenas de variantes que tomam parte de qualquer eleição. Quanto maior a lucidez e experiência , mais ajustadas e acertadas serão as escolhas.

Medo da perda.

Escolher sempre significará abrir mão de algumas coisas por outras, e tememos selecionar errado, perdendo algum outro objeto, momento ou situação que seria o melhor para nós. Cada vez que elegemos alguma coisa que presumimos ser a melhor escolha, abrimos mão de uma série de outras tantas. Uma parte de nós, eternamente infantil, detesta perder e este sentimento pressiona nossa tomada de decisão. Uma das sensações que mais desagrada ao Homo cultus é o arrependimento, pois implicará no reconhecimento de sua incapacidade momentânea para ver com clareza uma determinada situação.

As conseqüências de nossas escolhas

Todas as vezes que escolhemos, trazemos à luz um grupo de possibilidades que de outro modo não existiria. O exemplo clássico é o genético: quem seria você, se seus pais não tivessem permitido a gravidez que deu nascimento a você? Ou se a sua mãe tivesse casado com um outro homem que não fosse seu pai? Nossa visão sobre como as escolhas combinam-se com a realidade é pequena, produzindo uma desconfortável ansiedade.

Visão distorcida de quem somos nós

A autopercepção, ou seja, a concepção que o indivíduo tem de si, é fruto de profundos e inconscientes valores, implantados através da educação. Educação é ajustar, condicionar a espécie, ativa e passivamente, às regras, normas e costumes de uma determinada época e lugar. Ela consecutivamente sacrifica todas nossas tendências, predisposições e talentos inatos em prol da integração do indivíduo ao meio social.

O lugar e época em que cada um de nós nasceu moldaram a maneira como entendemos o mundo e esta apreensão da realidade orientará continuamente as nossas escolhas, que constroem o nosso destino.

Esta impressão particular do mundo forma aparentemente o componente mais profundo daquilo que se chama o que somos, mas é apenas parte do que temos. Inconsciente, esta configuração não é fruto das nossas próprias escolhas, mas representa apenas aquilo que desejavam para nós as pessoas que estiveram presentes na nossa formação. Esta foi construída segundo os valores e entendimento particular e distorcido da realidade dos formadores.

A educação é sempre um processo de repressão da instintividade, como ferramenta de adaptação. No instinto, habitam energias muito poderosas e quase indomáveis. Por isso, no esforço de controlá-las, a educação acaba por produzir indivíduos ajustados, mas também temerosos, auto-restritivos, domesticados, onde, em nome da estabilidade do grupo, são sacrificados o impulso criativo, inovador e a curiosidade inata do homem-macaco.

Uma luz no fim do túnel das escolhas

Como vimos, quanto mais condicionado for o indivíduo, maior a sua submissão aos desmandos dos vásanás coletivos e pessoais, que modelam as suas escolhas e que constroem o destino daquela pessoa.

Daí a importância de se exercitar a lucidez, como propõe DeRose. A expansão da perceptibilidade capacita o indivíduo a identificar as possíveis e múltiplas conseqüências de suas ações, assim como um Mestre enxadrista consegue antever, muitos lances a frente, as inúmeras combinações das peças dispostas no tabuleiro, construindo defesas e infringindo ataques decisivos ao adversário.

Poderíamos comparar um praticante disciplinado do Método DeRose a um exímio enxadrista existencial, já que a reeducação comportamental proposta pela Nossa Cultura, através do exercício continuado de conceitos e técnicas, em última instância, ampliam a lucidez, o autoconhecimento.

Este indivíduo, através de técnicas como o samyama (meditação) e o yôganidrá (treinamento do sono consciente), por exemplo, exercita continuamente a atualização dos vásanas (condicionamentos) e samskára (as crenças e paradigmas), alavancando uma visão cada vez menos distorcida da realidade,  proporcionando-nos fazer escolhas mais inteligentes, integrativas, sociabilizadas e refinadas.

Um trishúla vivo

Sábado, 1 de Maio, 2010

DeRose PXB 6

DeRose é a encarnação de um trishúla. Como seu discípulo há mais de trinta anos pude sentir na pele, enumeras vezes, a sua capacidade de motivar as pessoas a se superarem.
Tem entre tantas habilidades incomuns, uma capacitação surreal para identificar o erro. Quando se tem o privilégio de estar perto dele, observamos que, por onde passa, sinaliza a falha e sugere a melhoria, em um movimento contínuo pelo melhoramento, superação.
Sua abençoada insistência pelo qualidade máxima, resultou em um pull de produtos oferecidos pela Nossa Cultura que impressionam os que não estão acostumados: os nossos livros, por exemplo, além de uma diagramação e textos impecáveis, diferenciam-se pelo essência fixadora Carezza colocado na tinta de impressão, deixando-os suavemente perfumado. A nossa medalha com o ÔM, as capas dos nossos CDs, as embalagens do incenso Kali-Danda e do próprio Carezza são alguns outros modelos de cuidado com a qualidade extrema.
Como instrumento evolutivo é muito forte, desafiador e transformador para aqueles que, como educandos, se submeter a lâmina afiado do Educador e Mestre.
Conviver com DeRose nestes anos todos, me demonstrou o por quê que tantos praticantes de Yôga, todos ocidentais, escolhem Mestres de Yôga já falecidos. É que não suportariam a provação de receber as inevitáveis admoestações de um Mestre vivo. E são estes sádhakas, tradicionalmente, os que falam sobre a tal “dissipação do ego”. Ego este que não têm a maturidade para metabolizar as  repreensões e vislumbrar o amor por detrás destas.
Afinal de contas, só muito afeto e senso de missão faria uma pessoa agüentar reeducar pacientemente, e às vezes, sem paciência, tantos discípulos por mais de 50 anos!
E como aprendizes, temos que estar agradecidos por cada indicativo de aprimoramento. Este é o mais poderoso instrumento evolutivo de um discípulo. É o maior de todos as modalidades de prática. E precisamos estar alertas, pois como nunca paramos de nos aperfeiçoar e aprender, devemos nos preocupar quando, por algum motivo, o Mestre cessa de nos repreender. Provavelmente, desistiu de nós. Este é um momento terrível.
Para aqueles que não conhecem o Educador DeRose, é importante frisar que sempre primou pelo cuidado e cortesia na relação Mestre e discípulo. Este casamento, em verdade, é soberanamente lembrado, por todos nós, seus supervisionados, muito mais pelos momentos de cumplicidade, companheirismos e boas risadas, do que pelas correções de hábitos e valores.
Além, disso, cada vez que temos a regalia de desfrutar de seus cursos, que hoje ministra por toda a América Latina e Europa, aprendemos tanto, recebemos tanto conhecimento que, inevitavelmente, reafirma-se no coração de cada acólito, a bênção de desfrutarmos da presença viva de um autêntico Mestre de Yôga.

Para quem não sabe, trishúla alude a uma arma de guerra na forma de tridente,  utilizada na  Índia há milênios. Também refere a Shiva, o criador do Yôga, no seu  aspecto destruidor de  avidya, a ignorância da totalidade da nossa natureza.

DeRose é a encarnação de um trishúla. Como seu discípulo há mais de trinta anos pude  sentir  na pele, inúmeras vezes, a sua capacidade de motivar as pessoas a se superarem.

Tem entre tantas habilidades incomuns, uma capacitação surreal para identificar o erro.  Quando se tem o privilégio de estar perto dele, observamos que, por onde passa, sinaliza a falha e sugere a melhoria, em um movimento contínuo pelo melhoramento, superação.

Sua abençoada insistência pela qualidade máxima, resultou em um pull de produtos oferecidos pela Nossa Cultura que impressionam os que não estão acostumados: os nossos livros, por exemplo, além de uma diagramação e textos impecáveis, diferenciam-se pelo essência fixadora Kámala colocado na tinta de impressão, deixando-os suavemente perfumados. A nossa medalha com o ÔM, as capas dos nossos CDs, as embalagens do incenso Kali-Danda e do próprio Kámala são alguns outros modelos de cuidado com a qualidade extrema.

Como instrumento evolutivo é muito forte, desafiador e transformador para aqueles que, como educandos, se submeter a lâmina afiada do Educador e Mestre.

Conviver com DeRose nestes anos todos, me demonstrou o porquê que tantos praticantes de Yôga, todos ocidentais, escolherem Mestres de Yôga já falecidos. É que não suportariam a provação de receber as inevitáveis admoestações de um Mestre vivo. E são estes sádhakas, tradicionalmente, os que falam sobre a tal “dissipação do ego”. Ego este que não têm a maturidade para metabolizar as  repreensões e vislumbrar o amor por detrás destas.

Afinal de contas, só muito afeto e senso de missão faria uma pessoa aguentar reeducar pacientemente, e às vezes, sem paciência, tantos discípulos por mais de 50 anos!

E como aprendizes, temos que estar agradecidos por cada indicativo de aprimoramento. Este é o mais poderoso instrumento evolutivo de um discípulo. É o maior de todas as modalidades de prática. E precisamos estar alertas, pois como nunca paramos de nos aperfeiçoar e aprender, devemos nos preocupar quando, por algum motivo, o Mestre cessa de nos repreender. Provavelmente, desistiu de nós. Este é um momento terrível.

Para aqueles que não conhecem o Educador DeRose, é importante frisar que sempre primou pelo cuidado e cortesia na relação Mestre e discípulo. Este casamento, em verdade, é soberanamente lembrado, por todos nós, seus supervisionados, muito mais pelos momentos de cumplicidade, companherismo e boas risadas, do que pelas correções de hábitos e valores.

Além, disso, cada vez que temos a regalia de desfrutar de seus cursos, que hoje ministra por toda a América Latina e Europa, aprendemos tanto, recebemos tanto conhecimento que, inevitavelmente, reafirma-se no coração de cada acólito, a bênção de desfrutarmos da presença viva de um autêntico Mestre.

A natureza e o Yôga: a superação dos instintos.

Sábado, 1 de Maio, 2010

Yôga é domínio sobre a natureza.

Quando olhamos o sádhana, a prática diária, sobre este ângulo, algumas interessantes associações podem ser feitas.

Uma é de que dissolvemos para sempre, em nós, o rótulo utilitário, de benefícios, imposto pela mídia e a opinião pública.

Por exemplo, ao executar um ásana, procedimento orgânico, notadamente tão coligado à atividade física, flexibilidade etc, o sádhaka, praticante, faculta-se aplicar uma intenção à mentalização enquanto permane na posição, que a projeta para muito além do emprego do azul para sedar ou o laranja para tonificar, modelo ampla e unanimemente usado nas orientações do Instrutor em classe.

Antes de continuarmos, porém, cabe relembrar a ancestral frase utilizada por DeRose, nas primeiras edições do Prontuário de Yôga Antigo: “Yôga é 80%  mental e 20% físico”. Ou seja, o ásana escapa efetiva e definitivamente da condição de exercício físico, quando utilizamos os modelos mentais, protótipos de saúde, longevidade, prosperidade, evolução etc. Antes disso, ousaríamos dizer que ainda não é ásana.

Continuando o raciocínio, note o leitor que o foco está na vontade e não especialmente nas construções de imagens, embora estas também possam mudar drasticamente, quando o sádhaka se debruça sobre a frase do início do texto.

Incorporado o conceito de que Yôga é domínio sobre a natureza, o praticante, ao assumir o ásana ou qualquer outra técnica do Nosso Método tais como pránáyáma, kriyá, pújá etc, estará sujeito a adotar uma atitude mental aonde a atenção está voltada em reconstruir o corpo, reeducar a emocionalidade e disciplinar os pensamentos, remodelando-se na direção de um arquétipo de perfeição evolutiva, incorporando qualidades, talentos e habilidades que o levem a uma espiral ascendente e continuada de sobrepujança sobre a sua genética, instintos, hábitos e crenças. Ou seja, uma intenção definitivamente afastada dos alvos utilitários.

As reflexões acima expostas, nos parecem uma visão pura de poder, de domínio e que afastam os sádhaka, de sua humanidade tão imperfeita. “O Yôga é um processo de desumanização, de desnaturação do ser humano” já alertava DeRose em seus cursos na década dos oitenta do século passado.

Esta atitude, de auto-superarão dos instintos, pode remodelar também a qualidade, a profundidade e potência das mentalizações, do chayttanya do discípulo. Na maioria dos casos, como desdobramento, a expectativa e a qualidade da vida do educando são dilatadas, a rede e a propriedade das relações interpessoais amplia-se, desembocando naturalmente em consolidação econômica, reconhecimento social e profissional.

Estes são apenas os sinais externos, recorrentes nos praticantes das modalidades de Yôga autênticos, entre os quais incluímos o Nosso Método. Refletem um câmbio, mudança nos registros humanos coletivos, mundanos, normais, atrelados biologicamente apenas a garantir sobre-vivência individual e perpetuação da espécie, e nos quais está submersa a maioria esmagadora da Humanidade. São substituídos por outros, edificados pela ética, civilidade, cidadania, cultura, hábitos alimentares e comportamentais mais sutis, forte reforço gregário, ou seja, os elementos que ensejam a Nossa Proposta Cultural.

quadro sinoptico do Metodo DeRose cortado

Evitando conflitos

Segunda-feira, 5 de Abril, 2010

DiscussãoRecebia em Floripa alguns amigos de Porto Alegre. Eles estavam hospedados em uma pousada em Jurerê, praia próxima ao centro da cidade, e volta e meia, nos reuníamos em algum bom restaurante para compartilhar boa comida e ótima conversa.

Um destes encontros foi realizado em uma famosa trattoria, muito bem frequentada pelos ilhéus, ou seja, nativos da Ilha de Santa Catarina. Na hora de eleger o prato, não me fiz de rogado, e ao perceber que um dos convivas titubeava entre tantas opções do cardápio, indiquei o meu prato favorito na casa:

- Fulano, escolha o fettuchine à romana. É uma delícia – comentei, sorrindo. Meu amigo me agradeceu e solicitou ao garçom a opção por mim indicada.

Uma vez, elegidos pratos e bebidas, o atendente retirou-se e passamos a conversar. Passaram-se uns vinte minutos e voltou o nosso garçom com as mãos cheias de bandejas, aromas, nhoques, talharins e outras iguarias, distribuindo-as pela grande mesa, com mais de dez pessoas.

Todos serviram-se e iniciaram a comer. Fiquei alguns minutos entretido em degustar o meu fettuchine à romana, com seu molho vermelho, azeitonas negras, alcaparras, alho etc, quando notei que o meu amigo, que havia acatado minha sugestão pelo mesmo item do cardápio, colocara uma pequena colherada da comida no seu prato, e depois pousara os talheres à mesa, continuando a conversar, mas já sem comer.

- Fulano, não gostas de molhos fortes? – indaguei.

- Detesto, Jojó - respondeu-me ele, com um olhar que expressava  decepção e uma leve irritação.

Fiquei muito envergonhado. Na ansia de compartilhar algo que eu considerava bom, nem sequer tentei investigar qual os gostos por comida do meu querido amigo. Na hora de pagar a conta, fiz questão de acertar a parte do meu parceiro de mesa.

Mas, apesar do meu constrangimento, aprendi uma valiosa lição, que mudou, para sempre, a qualidade das minhas relações interpessoais.

A partir deste evento, todas as vezes em que emito minha opinião, seja em uma conversa informal, uma palestra, curso ou entrevista, passei a utilizar, no início da minha fala, uma frase que diminuiu muito os conflitos e as situações embaraçosas.

- No meu ponto de vista,…. – e, a seguir, discorro sobre o assunto. Mas, não satisfeito, ao final, volto a alertar:

- Esta é a minha opinião.

E é mesmo! É sempre, somente a opinião, o ponto de vista que cada um de nós tem da realidade que nos cerca. Seja um amigo,um político, o cônjuge ou, principalmente, o jornalista, todos nós, sofremos uma distorção ao ouvirmos, lermos ou vermos qualquer coisa. E quem escreveu, por exemplo, também!

Portanto, com amigos e, principalmente,  desconhecidos, esta estratégia reduz bastante as discussões acaloradas, sejam em debates públicos, cursos ou conversas, evitando um ambiente desconfortável só porque alguém tem uma opinião diferente da nossa. Em verdade, todos tem, e o bacana é conseguir com que levemos as opiniões discrepantes à uma troca de visões de mundo que nos acrescente, porém sem conflitos.

Saudades…

Terça-feira, 21 de Julho, 2009

Uma das maiores dádivas da existência é o tempo, que nos faz mais sábios à medida que passa através de nós. É gostoso imaginar-me imóvel e os eventos atravessam-me. E na medida em que transpassam meu corpo, vão gastando-o devagar, mas inexoravelmente, e por isso envelheço.

O tempo só existe para quem morre. Para todos nós ele é finito. A consciência da inevitabilidade da morte é apavorante, mas também é um presente, alertando-nos para a importância da qualidade das nossas escolhas.

Afinal as escolhas constroem o nosso destino.

Tenho muitas lembranças, agora. Por isso tenho saudades. Assim, escolhi, já faz algum tempo, perdoar sempre. Não me permito mais preencher meu tempo, tão curto e precioso, com rancor. Só os Deuses podem guardar sentimentos assim, pois são eternos. Para nós, entes finitos, é mais inteligente escolher sentir amor e compaixão. Não de uma forma piegas ou santificada, mas humana, e talvez, canina. Rsrsrs

Olho para a Bíja e desfruto de cada momento que estou com ela. Provavelmente morrerá antes de mim. É tão curta a vida de uma cachorrinha… Aproveitarei todo o tempo que nos resta para amá-la.

Saudades tomam meu coração, hoje em dia, com mais freqüência do que eu gostaria. Não que a vida seja ruim. Em verdade, nunca esteve tão boa. É só que foram tantos os momentos lindos. Tanto amor. Tanto riso. Tantos amigos. E o bacana, é que sempre as lembranças trazem consigo uma trilha sonora, que fica na minha cabeça.

É louco saber que estou me despedindo da vida, bem devagar. Talvez dure mais quarenta anos, mas ainda assim, cada dia, é um dia a menos.

Um amigo me falou, uma vez, que viver é saltar de um precipício. Alguns se jogam, parecendo ansiosos de esborrachar-se no fundo do despenhadeiro. Outros resolvem fazer uma escalada descendente, fazendo muita força. E alguns, descem de pára-quedas, bem devagarzinho.

A gente é quem escolhe.

Uma felicidade viável

Sexta-feira, 2 de Janeiro, 2009

felicidadeUma proposta humana de felicidade,
em um texto que espero que motive-o
a encontrá-la no único lugar onde ela habita:
aqui e agora.

Muito se fala de felicidade. É prometida como o desfrute final de todas as religiões para àqueles que nelas crêem e garantida por toda a propaganda nas emissoras de rádio, canais de televisões, vendedores e outdoors em todas as línguas por todo o mundo. Tanto mais se fala dela quanto mais distante nos parece. Sentimento, sensação ou experiência que permeia todos os sonhos humanos, é ao mesmo tempo tangível e inacessível. Refutamos as experiências que nos afastam dela e procuramos, quase obsessivamente, reprisar aquelas que nos proporcionaram alguns instantes desta impressão inesquecível, transcendental e, no entanto, excessivamente volátil.

Afinal o que é a felicidade? Iniciemos pelo que nos diz o Dicionário Houaiss: qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar. Gosto dela. Aproxima-se bastante daquilo que desfrutamos. Porém, como existem muitos significados para o termo, ouso colocar aqui a minha colher e sugerir que definamos felicidade como o estado neurofisiológico desencadeado pelo psiquismo quando identificamos que nada nos falta, que estamos momentaneamente completos.

Uma curiosidade: muitas das vezes em que somos possuídos por esta felicidade, é tal a sensação de satisfação, de preenchimento em si mesmo, de auto-suficiência que a possibilidade de morrermos naqueles instantes não nos assusta. Fica a impressão de que o medo do fim da vida é proporcional ao quanto não conseguimos transformar nossos sonhos mais profundos em realidade, na maneira como deixamos nossa marca no mundo e nas pessoas que amamos.

No entanto, me parece que a felicidade está mais presente em nossas vidas do que alcançamos apreender. Suspeito que o principal motivo é o modelo estereotipado hollywoodiano que absorvemos desde crianças. Quando nossas experiências cotidianas de felicidade nos surgem, não se assemelham ao padrão introjetado na memória inconsciente e aí ficamos impossibilitados de identificá-las.

De qualquer maneira, os momentos de felicidade são definitivamente finitos. Ou seja, não duram para sempre. São permeados por outras situações que incluem diferentes coeficientes de insensibilidade, sofrimento, alegria, euforia e outras tantas sensações com que convivemos desde o nascimento até a última respiração.

Portanto, poderíamos dizer que uma pessoa é tanto mais feliz quanto a sua habilidade em realizar escolhas inteligentes que lhe desencadeiem uma quantidade diária maior destes estados neurofisiológicos de plenitude.

E quais seriam estas escolhas superlativas? A seguir relaciono algumas segundo os pontos de vista deste autor, e que em nenhum momento ousariam e pretenderiam representar a verdade sobre a felicidade. São apenas pontos de partida, meras sugestões para uma felicidade mais possível, humana e viável. Poderíamos dizer que uma felicidade com tendência ao concreto.

1. um corpo saudável, pois afinal sem um corpo, a experiência existencial não é possível e se ele não for saudável, esta será a maioria do tempo desagradável e sofrida. Até conhecem-se pessoas que conseguem ser muito felizes apesar de grandes sofrimentos físicos, mas é exceção à regra. Corpos saudáveis liberam uma quantidade enorme de serotonina e outros neurotransmissores, gerando muita felicidade bioquímica;

2. estabilidade econômica, que se constitui naquilo que o Mestre DeRose definiu muito sabiamente como riqueza: ter-se mais do que se precisa. Para alguns, esta riqueza significa uma pequena casa, um emprego e um cachorro. Para outros, o iate Laura, do rei Roberto Carlos ainda não seria o suficiente. Não importam os valores, pois são diferentes para cada ser humano. O importante é que se consiga encontrá-los;

3. faça shirshásana diariamente. Constitui-se em inverter a posição do corpo, apoiando o alto da cabeça no chão e colocando os pés e pernas para cima, de maneira a irrigar concentradamente o encéfalo, popularmente conhecido por cérebro. Além de prevenir síndromes como a de Parkinson e Alzheimer, estimula a quantidade de sinapses nervosas simultâneas, promovendo a criatividade, intuição e inovação; além de irrigar os lóbulos corticais, principalmente o esquerdo. Pessoas que o instigam, são pessoas que solucionam mais rapidamente os problemas cotidianos, refazendo rapidamente a homeostase psico-orgânica, ou seja, felicidade instantânea.

4. cultive o hábito de fazer escolhas responsáveis. Uma pesquisa foi realizada com um grupo de anciões com mais de oitenta anos num asilo. Foram divididos em dois grupos-experimentos de dez indivíduos, aos quais eram cedidos diariamente filmes, dieta e atividades de lazer variados. A diferença era que um dos grupos podia optar enquanto o outro tinha que aceitar as sugestões impostas pelos pesquisadores. No final de algum tempo o índice de doenças e mortes era significativamente menor entre aqueles que podiam eleger. Escolher estimula a percepção da liberdade individual e esta aumenta o prazer de viver fortalecendo os mecanismos de preservação biológica.

5. viva uma vida sexual plena, seja o que isto signifique para você. O mundo é cada dia mais pansexual. O leque de opções sexo-comportamentais é muito grande: heterossexual, homo ou bissexual. E ainda pode se combinar com um, dois ou muitos parceiros. Ou até nenhum! Observe-se depois de um relacionamento sexual mutuamente satisfatório. A sensação é de plenitude. De satisfação plena. Ou seja: felicidade! É o justo prêmio que a natureza lhe proporciona por estar preenchendo os desígnios biológicos para os quais foi criado. O que não ajuda a ser mais feliz é reprimir o instinto sexual. Porem, educá-lo e refiná-lo sim. É possível e desejável, de maneira a acordar em nós outras sensações ligadas a uma sexualidade plena, de que todo ser humano tem direito. E, não obstante a História humana ser eivada de autênticos santos que atingiram um estado particular de felicidade através de transes místicos e que para atingi-los abriram mão da sexualidade, seres humanos normais não nascem com esta predisposição e, assim sendo sofreriam muito se adotassem o celibato;

6. estabilidade relacional, que para alguns é encontrada num casamento monogâmico. Para outros somente se compreender mais de um parceiro fixo. E ainda alguns que atingem a estabilidade com muitos parceiros. E vamos incluir também os celibatários nesta lista que parece não ter fim. Mais uma vez, cada um deve procurar um modelo que lhe satisfaça plenamente. E se precisar, experimentar até descobri qual é o seu padrão. E lembre-se que este inventário de vínculos abarca também amigos verdadeiros, confiáveis e cúmplices. Hoje se sabe que casamentos estáveis são aqueles nos quais os cônjuges também são grandes amigos. O que realmente importa é se construir uma rede de relações duradouras e onde se possa encontrar ressonância para repartir os bons e maus momentos, ou seja, a curta e fascinante aventura que é viver;

7. vida com significância, no sentido de identificar o seu valor e aplicá-lo no mundo através de uma atuação social que tenha importância, que faça alguma diferença, modificando e melhorando o mundo e a espécie pela nossa atuação particular. Curiosamente, independentemente da profissão. Afinal, qualquer atividade laboral, seja qual ela qual for, é importante. O que estamos falando é do coeficiente de conexões que o indivíduo consegue identificar entre a sua performance laboral e a realidade que o cerca. Quanto mais acoplamentos e interconectividades simultâneas o indivíduo conseguir perceber, mais significância e felicidade genuína extrairá do seu trabalho.

Vislumbre-se incorporando estes sete escolhas comportamentais. Concorda comigo que a vida fica mais fácil e prazerosa? E refletindo bem, é só começar. Objetivamente, nada nem ninguém sabota nossos desejos. Errando e acertando, em algum momento, inevitavelmente, nos aproximaremos destes padrões ou outros que cada um definirá como prioritários. A felicidade não tem uma fórmula única. Porém, devemos e podemos procurar a nossa maneira de encontrá-la. Conscientes da sua volatilidade e inconstância, mas também, da nossa meritocracia em desfrutá-la pelo maior tempo e quantidade de vezes possível. E que, definitivamente só depende de nossas escolhas.

 
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